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quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Karaokê dos desenhos

No Japão, mais do que em qualquer outra parte do mundo, as trilhas sonoras têm destaque no mercado fonográfico. Tratadas como um gênero independente, as animesongs, que são as músicas feitas especialmente para os desenhos animados japoneses – chamados animês –, possuem seu próprio espaço nas lojas de CDs na Terra do Sol Nascente.

Constituindo um gênero único, as animesongs produzem seus próprios hits e estrelas. Hironobu Kageyama, atualmente o maior nome no segmento, gravou no final dos anos 80 o tema Cha-la Head-Cha-la, abertura de Dragon Ball Z, um dos principais hinos dessa cultura. Kageyama também deu voz as canções de Changeman e Cavaleiros do Zodíaco, através das quais ganhou fama até no Brasil, onde todos os anos junta cerca de cinco mil pessoas em eventos especializados.

Segundo o jornalista e tradutor Ricardo Cruz, as animesongs são um braço forte do mercado musical japonês. O estilo possui seus próprios artistas que produzem músicas exclusivamente para os animês, e também para games, fazem seus próprios shows e, além disso, possuem as próprias gravadoras. “No Brasil, não há um segmento só para trilha sonora; o máximo que tem é trilha de novela. Já no Japão, animesong é uma indústria de grande porte e que cresce cada vez mais, ainda mais agora com o apoio e o interesse não só de japoneses, mas como de fãs do mundo inteiro”, comenta o jornalista.

Nos últimos anos, as animesongs têm sido a ponte de ligação entre os brasileiros e o mundo da música japonesa. Muitas trilhas já mostradas no Brasil foram mantidas intactas, fazendo com que fãs cantarolassem as músicas dos heróis mesmo não entendendo o que diziam. Embora as músicas originais possuíssem certa fama entre os fãs, existem versões traduzidas, como em todo lugar do mundo, para os temas de animês.

“Sou a favor de traduzir as músicas em versões bacanas; em versões produzidas por músicos mesmo. É o que começou a acontecer a partir da Pegasus Fantasy, tema dos Cavaleiros do Zodíaco”, explica Ricardo Cruz. “A versão em português de Cavaleiros foi cantada pelo Edu Falaschi, vocalista da banda Angra. Isso é bem bacana porque identifica aquela abertura com o público, as pessoas conhecem, o Edu é um vocalista ‘bacana’; além da música ser muito boa também”, continua.

O público brasileiro das animesongs é grande. O Anime Friends, o maior evento de animês, mangás e cultura pop japonesa da América Latina, que acontece todos os anos em São Paulo, reuniu 20 mil pessoas em sua primeira edição, em 2003. O público do gênero é tão grande graças à Internet, que facilita muito o contato entre os interessados, até mesmo fazendo o número de fãs crescer. “Como qualquer área de interesse, na internet você dá alguns poucos cliques e se tem acesso a tudo relacionado a esse nicho”, explica o jornalista. Além disso, o Brasil é o país que mais oferece shows ao vivo dos artistas de animesongs, fora, evidentemente, o próprio Japão.

“A cada ano, o sucesso vai crescendo, o número de cantores aumenta e o número de público também. Tudo isso ajudou a criar esse nicho, esse público sedento por novidades aqui no Brasil atualmente.”

Invasão da cultura pop japonês por meio dos quadrinhos

Com suas características únicas, os mangás conquistam mais fãs a cada ano.

Inaugurada por Cavaleiros do Zodíaco em 1994, reforçada por Dragon Ball e Pokémon e maximizada por Naruto, a mania pelos quadrinhos (mangás) e desenhos (animês) japoneses no Brasil é inegável. No seu auge, entre 2000 e 2001, alguns títulos chegaram a ter tiragens de 200 mil exemplares quinzenais. Hoje a tiragem média é de respeitáveis 30 mil, mas os mangas seguem inspirando tendências e refletindo uma cultura de massas que, apesar de uma origem do outro lado do planeta, possui uma linguagem universal.

O comerciante Ricardo Zanetti, 27, acredita que tais títulos fizeram tanto sucesso por conta do roteiro bem elaborado, pelo toque de comédia em certas partes e “pela lição de vida que podemos encontrar nas histórias”. “Outra característica de sucesso é o fato de as pessoas verem elas mesmas na pele do personagem. Eles são humanos como a gente. Acho que não saímos voando por ai e soltando raios”, comenta o comerciante.

Além de o personagem ser mais humanizado que os demais quadrinhos, os mangás possuem o visual e a linguagem próprios e diferenciados. Mesmo fazendo parte do mesmo nicho, os comics (quadrinhos americanos) e os quadrinhos japoneses possuem características evidentemente distintas. A diferença visual mais característica está na ordem da leitura. O HQ japonês começa pelo que seria o fim do livro ocidental e seus quadros são lidos da direita para a esquerda.

Os estudantes Ana Beatriz Sá, 18, e João Carlos Nogueira, 16, acreditam que a originalidade está na diagramação dos quadros. “É interessante ver como os desenhos são colocados de forma diferente dos outros quadrinhos. Nota-se, também, que há uma grande preocupação com detalhes e como os cenários e personagens serão colocados para explicar melhor a história”, explicam. A estudante Carolina Rodrigues, 17, diz que começou a se interessar por mangás há cerca de sete anos, antes mesmo de saber o que era o estilo. “É bem fácil notar a diferença entre desenhos orientais e ocidentais. Enfim, eu já gostava e nem sabia”, explica Carolina.

Enquanto os comics (americanos) e os fumetti (europeus, especificamente italianos) possuem uma distribuição mais tradicional, para não dizer quadrada, os mangás optam e possuem certa liberdade no estilo. Com isso, notam-se quadros mais angulados, às vezes nem existindo uma caixa para “segurar” o desenho, e com personagens estourando as margens traçadas, ou seja, extrapolando suas áreas demarcadas. ”Os quadrinhos japoneses tem como principal característica a estética estilizada e a associação desta estilização com uma narrativa cinematográfica”, explica Daniel HDR, desenhista e ilustrador gaúcho que usa o estilo mangá produzindo para o mercado americano. “Diversos elementos gráficos a caracterizam, criando uma linguagem própria, que é quase que emblemática, e associa tudo à arte de movimento das cenas e as linhas de ação, chamadas speedlines”, completa. Nos Estados Unidos, Daniel ajudou a redefinir o estilo dos quadrinhos de super heróis, que atualmente tem um estilo similar aos mangás.

No Brasil, antes do auge do mangá, já existiam certos títulos que anos mais tarde se tornariam clássicos dos quadrinhos, como Akira e Lobo Solitário. Mas foi no ano 2000, com publicações de Samurai X, Cavaleiros do Zodíaco e Dragon Ball, que o mangá começou a expandir seus horizontes. Só a Conrad Editora imprimia cerca de 400 mil exemplares quinzenais entre seus títulos de maior sucesso.

Antes disso, os fãs, principalmente os não-descendentes, sofriam para encontrar seus mangás favoritos ou qualquer outro produto relacionado com os heróis japoneses. Além das incansáveis buscas pelo bairro da Liberdade, havia outro fator que dificultava a vida dos admiradores: o idioma. Os admiradores tinham que consumir o produto em sua língua nativa, o japonês.

Fabiano Otaguro, 24, lê mangás desde 1990 e acredita que o seu interesse pela língua japonesa veio da vontade de entender seus quadrinhos favoritos. “Comecei a ler mangás um pouco cedo, primeiro por conta da influência familiar e, segundo, porque meu pai morava no Japão na época. Ele sempre mandava alguma novidade interessante e eu queria entender”, explicou Otaguro.

Esse carinho pelos quadrinhos japoneses, além da vontade de se ter um material traduzido em mãos, fez com que surgissem autores nacionais – muitas vezes sem um sobrenome oriental – que produzem seus trabalhos no estilo mangá. São artistas que cresceram lendo as HQs japonesas, analisaram e captaram cada detalhe do diferente estilo gráfico que define o mangá e que sonham em, algum dia, publicar no Japão.

"O mangá brasileiro tem características próprias, pois se aculturou, assim como os japoneses imigrantes se aculturaram ao Brasil", explica Sônia Luyten, doutora em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da USP e autora do livro Mangá - O poder dos quadrinhos japoneses. "Eu chamo essa aculturação de hibridização de estilo. Foi o caso da Holy Avenger e do livro Mangá Tropical, com enredos passados no Brasil", completa.

Apesar da quantidade de aspirantes a mangaká (termo japonês para autores de mangás), conseguir espaço nas bancas ainda é complicado. Em parte, pela concorrência direta com os originais do Japão e, também, pela carência de histórias originais, não tão “inspiradas” por outros títulos nipônicos.

Para o desenhista Alexandre Nagado, organizador do almanaque Mangá Tropical, que reúne diversas histórias ambientadas no Brasil, o jeito nipônico de fazer quadrinhos pode ter vários adeptos, mas não garante sucesso profissional. "No Japão o mercado é grande e os autores têm espaço para amadurecer", analisa. "Aqui, falta uma estrutura e investimento das editoras para criar e manter revistas que paguem ao autor o mínimo para ele subsistir e continuar se aperfeiçoando”, continua. “Sem um mercado duradouro, não haverá um amadurecimento de um bom número de autores.”

(Texto produzido no segundo semestre de 2008, segundo ano de faculdade)

Impunidade?

O caso Isabella chocou todo o Brasil, gerando muita polêmica. Mas, como todo esse caso começou?

No final da noite de 29 de março, a menina Isabella Oliveira Nardoni, de 5 anos, foi encontrada caída no jardim do prédio em que o pai mora, na zona norte de São Paulo. Ela estava em parada cardiorrespiratória. O Corpo de Bombeiros foi acionado e tentou reanimar a menina, sem sucesso. O pai de Isabella, Alexandre Nardoni, 29, e a madrasta, Anna Carolina Trotta Peixoto Jatobá, 24, foram levados ao 9º DP (Carandiru) para prestar depoimento, logo após a constatação da morte da garota. Isabella vivia com a mãe, porém visitava o pai a cada 15 dias. O pai, em seu depoimento, disse que, naquela noite, chegou ao edifício de carro, com a mulher e os três filhos dormindo. Disse que levou a garota para o apartamento, colocou na cama e a deixou dormindo. Conforme a versão de Nardoni, quando ele voltou ao apartamento, percebeu que a luz do quarto ao lado do de Isabella, onde dormiam os irmãos dela, estava acesa; que a grade de proteção da janela tinha um buraco; e que a menina havia desaparecido. Em seguida, ele disse ter percebido que o corpo da menina estava no jardim. Nardoni disse, depois, suspeitar que a filha tivesse sido atirada do prédio por algum inimigo seu. Um pedreiro, com quem o pai de Isabella havia discutido cerca de um mês antes, chegou a ser ouvido, mas o envolvimento dele no caso foi descartado.

Após análise do IML, foram achadas lesões incompatíveis com a queda. Surgiram, então, suspeitas de que Isabella tivesse sido agredida antes de cair da janela ou mesmo que ela não tivesse caído, mas sido deixada no jardim, depois de espancada. Segundo os investigadores, Isabella foi morta por seus pais. A madrasta agrediu e estrangulou, e depois o pai a atirou, ainda viva, do sexto andar. Nesse trabalho, não irei me prender aos detalhes do caso, mas, sim, a uma análise de certas questões que julguei importante. O ponto principal do caso não é o seu desenrolar, mas, sim, todas as questões que estão envolvidas e em conjunto com tudo isso.

Um dos principais pontos é sobre a violência infantil. Interessante como uma tragédia tem que ocorrer para que todo o Brasil acorde para um problema sério como o da violência contra a criança. O jornalista Gilberto Dimenstein, em seu site, comenta: “A morte da menina Isabella Nardoni deixou uma extraordinária herança. Ampliou o debate, como nunca, sobre um problema que ocorre no Brasil, mas sem grande repercussão: a violência doméstica contra as crianças.” Detalhe para o “sem grande repercussão”, foi através do caso Isabella que muitas carinhas brasileiras conseguiram atenção para o que estavam sofrendo. Segundo estimativas do laboratório de estudos sobre a infância da Universidade de São Paulo (Lacri), menos de 10% dos casos de violência física e psicológica chegam ao conhecimento das autoridades. A notícia desse infanticídio provocou uma verdadeira comoção nacional em nosso país que bate recordes de violência, cerca de 500 casos de violência infantil por ano.

O caso Isabella permite que os brasileiros reflitam sobre as causas dessa violência e os meios de reduzi-la, pois não é um fenômeno isolado. Com o passar dos dias, vemos mais e mais crimes contra crianças, cada vez mais violentos e absurdos. Como no caso, no Rio de Janeiro, em que a mãe jogou água fervente no rosto do filho de 10 anos enquanto ele dormia. Ou em Goiânia, depois de uma denúncia anônima, a polícia prendeu uma empresária acusada de torturar uma menina de 12 anos, que morava na casa dela. A polícia diz que encontrou a vítima acorrentada e amordaçada na cobertura de um prédio. A própria pressão do dia-a-dia faz com que as pessoas liberem a sua raiva e agressividade como forma de alívio. Um dos principais motivos apontados pelos especialistas para a agressividade é a violência transferida, onde a criança, por ser frágil, torna-se um alvo fácil. Os adultos precisam saber controlar essa agressividade banalizada. Talvez esse seja um ponto para o “sacrifício” de Isabella em rede nacional e para os outros muitos casos. A psicóloga Maria Izabel Rodrigues da Silveira Campos dá as dicas de como combater a violência infantil, “Cada um de nós tem uma responsabilidade diante do ocorrido. Porque precisamos começar a desenvolver a cultura da prática da não violência; que não é fácil, é uma conscientização. E, mesmo consciente, dá muito trabalho, mas vale a pena.”

Não podemos esquecer do carnaval que o caso gerou; será que encontramos camisetas: “Reconstituição do Caso Isabella Nardoni, Eu Fui!”? A garota, como o caso, virou assunto das mesas de bar até ao presidente Lula; duvido que nenhuma conversa, em algum ponto, não chegasse a tocar nesse assunto. Assim como na época da morte do garoto João Hélio Fernandes, também traumatizando e emocionando todo o Brasil. Ou, até mesmo, com o caso do desaparecimento da menina Madeleine McCann, que “foi transformado em hit mundial”, como disse editorialista da Folha, Hélio Schwartsman. Não é apenas a tragédia que nos faz prestar atenção a todos esses casos, mas, sim, o modo como a mídia nos expôs a todos eles. É notável a própria mídia divulgou, de maneira extrema, e colocou até mesmo nas conversas de bar, e na casa do presidente, os casos dessas crianças. “O "caso Isabella" é um drama familiar. Mas bate fundo nos medos e nos dragões que devoram o equilíbrio individual e instigam reações coletivas”, comenta a colunista da Folha, Eliane Cantanhêde; e esse é mais um dos pontos.

Cantanhêde ainda diz que fica a sensação de que Isabella continua sendo asfixiada, maltratada, humilhada e finalmente jogada do sexto andar todos os dias, de manhã, de tarde, de noite, de madrugada. A garota é uma vítima sem fim, pois tanto a mídia quanto as pessoas estão sempre tocando no assunto e, cada vez mais, mexendo nessa ferida. A cobertura desse caso está com cara de telenovela policial, de acordo com o jornalista Alberto Dines “a intensa cobertura dos meios de comunicação estaria transformando o país em um ’fórum de Sherlocks Holmes’”; assim como o mistério do assassinato de Odete Roitman, em Vale Tudo da Rede Globo. A mídia trata o caso como se estivesse elaborando uma novela ao misturar ficção e realidade; a cobertura pode também ser comparada ao reality show Big Brother, onde os participantes são vigiados 24 horas por dia. Correta mesmo foi a decisão da redação UOL para um caso tão complexo, decidiram não amplificar demasiadamente o caso, nota-se que apenas uma manchete sobre Isabella foi publicada e alguns dias mais tarde algumas imagens para entender o caso. Tereza Rangel, Ombudsman do UOL, comentou que “é como se a redação dissesse ‘não vou entrar na comoção ou histeria (dependendo do ponto de vista) que o caso suscitou’.” A cobertura do caso para o UOL foi terceirizado, todo o trabalho ficou por conta da Folha. Rangel ainda adverte que para esse tipo cobertura os cuidados devem ser redobrados, pois “a rigor um caso como esse não deveria ter cobertura extensiva da mídia, porque, se houver algum erro na divulgação de informações, os danos causados são incorrigíveis.”

“Incorrigíveis”, e se o casal indiciado for inocente? O jornalista Alberto Dines avalia que a mídia está esquecendo de uma de suas funções, que é provocar a reflexão: "Ninguém quer pensar, prefere-se acusar, julgar e encerrar o assunto. Todos estão julgando, mas não pensando; tal ato vai do povo à mídia. Certo número de jornais, ou outros meios, optaram em apontar a "culpa do casal", dando pouco destaque a contrapontos. Faltou espaço ao chamado "outro lado". O acerto da Rede Globo foi mostrar a entrevista com o casal Nardoni à nação, eles deram voz aos que não estavam sendo ouvidos; mesmo podendo ser uma grande mentira. Nota-se que todos os meios de comunicação erraram em determinados pontos. “Errar é humano, mas persistir no erro já é burrice”, esse ditado popular pode ser muito bem empregado a esse caso e a Escola de Base; estaria a mídia “dando o mesmo fora” da Escola? Em 1994, o casal de proprietários da instituição de ensino, além de um professor e um casal de pais, foram acusados de abuso sexual de crianças. A mídia cobriu exaustivamente o assunto, parte dela prejulgando os investigados, mas o processo foi arquivado por falta de provas. A vida dos envolvidos na Escola de Base e, agora, os pais de Isabella está marcada para sempre; acredito que uma pequena nota de rodapé contando a “barriga” não resolveria nenhum pouco o inferno que a vida dessas pessoas virou.

Caso os pais da garota sejam mesmo os assassinos, de que adianta serem presos, já que as leis não funcionam da forma que deveriam? Arnaldo Jabor em dois momentos comentou o caso Isabella, um dos comentários foi feito para o Estadão; outro para o Jornal da Globo, ambos no dia 22 de abril. “os ‘condenados’ estão pelas ruas; livres, leves e soltos. Com o crescimento da crueldade, se podemos dizer, as leis de execução penal deveriam ser mais eficientes, rápidas, com punições mais temíveis e relativamente cruéis, violentas e mais rápidas, também. Não há mais como tolerar todos esses crimes horríveis e, muito menos, nossas leis antiquadas; os crimes devem ser estudados e as penas devidamente revistas. A lei deveria ser mais temida, rápida e cruel.” Todo o caso mostra como a lei penal está antiga e ineficaz, como Jabor disse. “O sujeito (Farah Jorge Farah) que esquartejou a namorada em legítima defesa está solto. Elias Maluco, que cortou em pedaços o Tim Lopes estava em liberdade condicional, sabiam? O assassino Pimenta Neves que matou a namorada está condenado e livre.”

É incontestável que os criminosos, por meio da lei, consigam viver soltos ou sem julgamento; parece que nos dias de hoje o melhor é ser pego e deixar que a lei o liberte, ou faça com que o caso fique pendurado por anos e anos. Podemos ver com o passar dos anos que a lei realmente é cega, ou apenas aparenta ser; o cidadão possui direitos, mas existem direitos para esses monstros que encontramos soltos por aí? Para se ter direitos, tem que ser cidadão e cidadania é merecimento. “O crime é rápido. A lei é lenta.”

(Texto produzido no primeiro semestre de 2008, segundo ano de faculdade)

A volta dos que não foram

É difícil destacar-se num mercado saturado com tantos artistas e lançamentos de CDs. A banda Del-O-Max, de Campinas, encontrou uma fórmula de sobressair-se no meio da multidão. Lançou ano passado seu álbum mais recente, Too Hard, em formato de vinil – aqueles “bolachões” que dominaram o mercado fonográfico entre as décadas de 50 e 80. A banda resolveu arriscar ao notar que o número de consumidores em busca desse formato cresce no país e no mundo. Enquanto a tecnologia dos CDs perde espaço para os práticos aparelhos de MP3, observa-se, curiosamente, também um ressurgimento dos bolachões e das pick-ups em que eles são tocados. “O som da nossa banda tem esse lado meio retrô e o vinil parece completar aquela sonoridade que a gente estava querendo alcançar já faz tempo”, opina Guilherme Campos, guitarrista e vocalista da banda. Por via das dúvidas, o novo trabalho também foi lançado em MP3, para não discriminar os fãs. “É para quem quiser fazer download, ouvir e mostrar para os amigos”, diz Guilherme.

Mas como um formato tecnologicamente ultrapassado como o vinil, substituído pelo CD, pode voltar em plena era digital? Em parte graças aos DJs, que nunca abandonaram o formato. Os adoradores do bom e velho toca-discos também garantiram a sobrevivência desse grupo, mas o fato é que ele vêm ganhando novos adeptos. "O vinil virou um objeto de consumo atraente, ‘cool’, e teve seu charme recuperado. Enquanto o formato CD é cada vez mais questionado, o vinil manteve um público cativo", comenta o jornalista, músico e tradutor Ricardo Cruz. “Essa é uma das justificativas para o mercado de LPs estar em ascensão”. Em 2007, cerca de 1 milhão de “bolachões” foram vendidos apenas nos EUA, um crescimento de 36% nas vendas em relação ao ano anterior. No mesmo período, a queda nas vendas de CDs foi de 19%, segundo dados do Nielsen SoundScan, o sistema que reúne informações sobre o setor musical.

É possível achar lançamentos em vinil de bandas novas que vêm ganhando espaço, por exemplo, LCD SoundSystem e The Racounters, e também de artistas consagrados como Paul McCartney e Madonna, Foo Fighters e Coldplay. Ótimos relançamentos também estão pelas lojas; clássicos de Metallica a Abbey Road e Sgt. Peppers, dos Beatles, Blonde On Blonde, de Bob Dylan e Aladin Sane, de David Bowie, a Physical Graffit, do Led Zeppelin e muitos outros nostálgicos. O preço? Nas lojas brasileiras como Saraiva e Livraria Cultura, todos acima de 50 reais; já no site Amazon, a média varia de 12 a 50 dólares.

Charles Leitão, produtor musical e criador do Clube do Vinil em Campinas, também atribui o culto à sensação transmitida ao colocar a agulha sobre a bolacha preta e ouvir os artistas preferidos, com o som da época em que fora lançado. “O som do vinil é algo único”, diz Leitão. “Não consigo entrar nessa de internet, baixar as músicas e pronto. Essa coisa de você não sentir, de não conseguir pegar a música, é estranho. Eu sou da época em que se comprava vinil, se fazia coleção e havia estantes ocupando o espaço na sala só pra guardá-los. E ainda faço isso” afirma. "Você pode até baixar um disco inteiro pela internet, mas nunca terá uma contracapa autografada pelo seu guitarrista preferido, nem poderá vibrar de emoção quando encontrar aquele álbum raro dando sopa num sebo”, completa.

Em comum, muitos aficionados cultuam o ritual nostálgico de virar o disco na vitrola, apreciar as ilustrações e fotos das capas e, acredite se quiser, sentir o cheiro do pvc. No meio musical é possível encontrar histórias inusitadas como a que Maurício Struckel, guitarrista da Del-O-Max, presenciou na “banquinha” de discos que levam aos shows. ”Apareceu uma menina, pegou o disco, abriu e fez uma coisa inimaginável; começou a cheirá-lo com o maior prazer do mundo e dava para ler o lábio dela dizendo: ‘vinil, vinil!’ e continuou cheirando o disco (risos). É uma coisa que tem cheiro, que você pega”, diz.

O som emitido pelo clássico formato plástico é bastante característico. Os aficionados destacam o “chiadinho” ao fundo da música, um efeito de abafamento, que, segundo dizem, dá a sensação de a banda estar ao seu lado. Os apreciadores afirmam que, além da melhor qualidade sonora, o LP é um desafio certo ao músico. Como o vinil comporta apenas 10 ou 12 músicas, o artista tem de realmente selecionar o repertório escolhido para cada álbum. Um dos problemas do disco de vinil é a sua durabilidade. “A do CD é infinitamente melhor, pois, como não há atrito com agulha, a mídia não se deteriora como ocorre com o vinil e a fita magnética cassete”, ressalta Tomi Terahata, consultor de tecnologia musical e técnico de som na EM&T - Escola de Música e Tecnologia. “Mas os CDs deixam os graves menos envolventes e os agudos um pouco mais agressivos, estridentes”, afirma. Em meio ao debate sobre a fidelidade do CD comparada à do vinil, não deixa de ser irônico que ambas as mídias tenham sido superadas por um formato, o do MP3, baseado na compressão de arquivos digitais e na perda de qualidade sonora.

A venda de discos usados é um motor importante do mercado do vinil. A chama do LP é mantida acesa por meio do grande número de sebos, além de sites de vendas, como eBay e Mercado Livre. Usuários do eBay compram 6 discos de vinil a cada minuto, ou 3 milhões de discos ao ano. Uma média incrível para um formato “morto”, não? Existem várias lojas especializadas nas antigas bolachas. Nelas, é possível encontrar desde ofertas que não pesam tanto no bolso até raridades com preços estratosféricos. A Riva Rock Discos, em Campinas, trabalha há mais de sete anos no ramo dos discos, tanto os clássicos de vinil, na maioria de segunda mão, quanto os desacreditados CDs. “Vendo LPs para garotos de 10 anos a pessoas de 60. Todo mundo vem”, comenta Riva, que, por meio de sua loja, procura misturar os diversos estilos musicais como forma de acoplar as pessoas ao vasto e diversificado mundo da música. “A gente procura ter tudo sem discriminação; desde Jazz, do Blues mais primitivo até o Death Metal.” Foi Riva quem ajudou a banda Del-O-Max a amadurecer a idéia de lançar o novo trabalho em vinil. “Foi uma das melhores coisas que já fizemos”, diz. Riva tenta ajudar bandas que considera interessantes a gravarem demos e ainda produz eventos para a divulgação de artistas cultuados. “No rock, há muita injustiça. Muita gente foi esquecida e outras pessoas fizeram sucesso em cima deles. Então, a gente procura divulgar todos”, afirma. “A loja existe há sete anos e nesses setes anos estamos no vermelho. Mas mesmo assim tentamos ajudar”, comenta Riva, que atesta a qualidade da Del-O-Max: “Amizade a parte, a banda é boa!”

Del-O-Max:

- Guilherme Campos – Baixo e vocal

- Renato Henriques – Baixo

- Mauricio Struckel – Guitarra e vocal

- Alessandro Poeta Soave - Bateria


(Texto produzido no primeiro semestre de 2008, segundo ano de faculdade)